12 setembro 2006

O paralelismo de FHC

Quero requentar um trecho da carta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por ela ainda não ter perecido e por crer que o tema merece um pouco mais de relevância:



"Erramos no início, quando quisemos tapar o sol com a peneira no caso do senador Azeredo. Compreendo as razões: ele é pessoalmente decente; tudo se passou durante a campanha para sua reeleição como governador, que afinal ele perdeu. Mesmo assim, calamos muito tempo e sequer dissemos o que sabemos: entre os responsáveis pelas finanças de campanha do então governador estava seu vice, hoje ministro do Presidente Lula. Nem isso dissemos com força! Mas não por isso podemos calar diante do descalabro. Ainda que o eleitorado não nos acompanhe neste momento, deixaremos as marcas de nosso estilo, de nossas atitudes, para calçar um futuro melhor para o país."

O trecho se refere ao senador Eduardo Azeredo. Não há qualquer prova de que Azeredo soubesse do caixa 2 em sua campanha pela reeleição para o governo de Minas Gerais em 1998. Não há qualquer prova de que Azeredo soubesse que contratos com o governo dele eram a garantia para empréstimos bancários que ajudaram a financiar projetos político-eleitorais de aliados do tucano. FHC parece concluir pelo paralelismo das situações de Azeredo e Luiz Inácio Lula da Silva. Faz sentido. O que não faz sentido, na minha opinião, é o desfecho da lógica do ex-presidente: de que Azeredo deveria ter sido imolado lá atrás para que Lula pudesse ter sido atacado desde então com mais desenvoltura.

Talvez a conclusão razoável seja outra: se a ausência de provas contra Azeredo foi razão suficiente para que nem processo abrissem contra ele no Senado, faz sentido que também o presidente tenha sido poupado de uma ação de impeachment. O debate insensato em que estamos mergulhados nos distancia de uma luz no fim do túnel.

3 comentários:

Alexandre, The Great disse...

Patrick.

Este é o seu pensamento.

Eu tergiverso pela primeira opção: o acordo que foi feito entre o PSDB e o PT pela preservação do Senador Azeredo, o que considero inaceitável pela essência.
Outra coisa é o "não sabia": tão repugnante quanto irônico. A lei não prevê a "sapiência prévia" para aplicar a punição. Portanto se houve caixa 2 a punição tem que ser aplicada, independente do conhecimento prévio do candidato. Quem delega assume o risco das ações de seus delegados.

Um abraço.

Neto disse...

O Alexandre definiu bem o que seria meu ponto de vista nesse caso, Patrick!
Uma das coisas que me deixa surpreso é o ex-presidente FHC falar da maneira como ele falou... Teria o ex-presidente caído na crença de que ele é o dono da verdade e por assim ser seria ele o único salvador desse país?

O fato de ser um Honoris Causa e profundo conhecedor da política brasileira pode dar a essa pessoa uma "ilusão de mundo".
A verdade é que, independente do caso citado por você, FHC deu nova vida ao partido do Presidente Lula e estragou a festa de Alckmim.

Abraços

Primavera Negra disse...

Olá, Patrick!
Parabéns, teu blog está cada vez melhor.
Quanto a este post, quase concordo contigo.
Quase.
FHC não diz que deveria ter sido aberto um processo contra o Azeredo, mesmo porque, como você bem coloca, não haviam provas. Ele acha, como eu acho, também, que Azeredo deveria ter sido afastado do PSDB por uma questão de moral. Se ele é suspeito, que prove e depois seja reincorporado ao partido, se for o caso.
No caso de impeachment, não acho que exista paralelismo, pois aí, também, é uma questão de moral.
Não são necessárias provas objetivas da culpa do Lula; se trata de um julgamento político, e não de um processo criminal.
O PSDB, ao não agir no caso de Azeredo, deu todas as condições para as desculpas de que todos fazem, são todos iguais, etc.
Abraço,
Renato.