22 setembro 2006

Uma aula que o Brasil perdeu

A expressão “reformas” viu-se adotada no mundo a partir dos anos 90, quando começou a reconstrução da tragédia econômica perpetrada pelo regime comunista. As reformas necessárias para a prosperidade num mundo globalizado se tornaram o grande desafio dos governantes neste novo século, e em toda parte elas enfrentaram resistências. Com efeito, “reformas” são mudanças de regras, em geral, econômicas, que prejudicam minorias organizadas, geralmente detentoras de privilégios, às vezes absurdos, às vezes simplesmente desnecessárias, em detrimento de maiorias não organizadas que geralmente nem sequer percebem que são prejudicadas, pois o custo do privilégio é diluído por milhões de pessoas.

Dois exemplos da experiência brasileira são a estabilização e a abertura. As partes prejudicadas são grupos, como pobres sem acesso a correção monetária, consumidores, contribuintes, grupos difíceis de se fazer representar na esfera política. Os beneficiários são bancos, o próprio governo, indústrias protegidas por tarifas e, genericamente, os interessados em gasto público, políticos e suas clientelas. Tudo gente muito ativa, organizada, militante e residente nos grandes centros. Ou seja, o Brasil é a exceção da regra.

No fim da década de 80 um político ficou conhecido em todo o mundo por fazer algo que parecia impossível, a transição para o capitalismo da decadente União Soviética. Gorbachov, maior reformador do século passado, dizia que todo reformador estaria condenado a enfrentar, com o tempo, irresistível desgaste, pois acumulará como inimigos um número crescente de minorias ressentidas, ao passo que as maiorias que beneficiou dificilmente perceberão a melhoria de seu padrão de vida, e que a devem aos reformadores. Gorbachov falou e disse. Assim o fez. Ao final do processo de reforma era incapaz de eleger-se síndico do prédio onde morava.

No mundo econômico é rara a negociação onde todos ganham; o mais comum é o que se conhece como “jogo de soma zero” (o ganho de um é a perda do outro) ou, como é comum no Brasil, o aparecimento de um terceiro, uma maioria desorganizada e portante ausente da conversa, e que nem sequer percebe que está pagando a conta. Neste caso, essa figura se chama “contribuinte”, provocando exatamente o tipo de distorção, que na teoria, as reformas deveriam destruir.


Este texto foi publicado no site do jornalista Mhário Lincoln.

4 comentários:

Anônimo disse...

chiiiii


No blog da Gusta, alertabrasi, há uma nota dos clubes militares

Santa disse...

É quando uma nação perde para manter a sordidez de alguns.

José Alberto Mostardinha disse...

Viva Patrick:

Um texto para lêr e reflectir.
Bom fim de semana.
Um abraço,

Neto disse...

Sem dúvidas, muita coisa nesse país precisa ser mudada.

Abraços