16 outubro 2006

Se continuar assim vai perder de lavada

Uma das coisas mais difíceis na hora da derrota é você suportar a dor de saber o quanto foi responsável pelo resultado que colheu. A tentação maior nessas situações é você buscar na autopiedade o efeito anestésico que vai aliviar o sofrimento. É o tipo de anestesia que mais atrapalha do que ajuda, como no caso do jogador de futebol que toma qualquer coisa para entrar em campo mesmo machucado. Mas as pessoas gostam dessa droga. Com o tempo, conseguem até construir mitologias complexas, recheadas de delírios persecutórios. Até que um dia se desligam completamente da realidade e passam ao mundo virtual dos desejos, do subjetivismo e da paranóia.

A política está cheia de exemplos assim. Mais na esquerda do que na direita -até porque é a esquerda que detém o maior número de derrotas a lamentar. Um exemplo é o tal debate entre Fernando Collor e Lula em 1989 e sua edição no Jornal Nacional da TV Globo. Lula foi muito mal no debate e o telejornal de algum modo refletiu isso. Houve "manipulação"? É possível, mas o JN não contou uma mentira. Só agiu nos limites da edição jornalística. Pois bem, Lula perdeu a eleição para Collor e desde então o JN que deu a matéria do debate entrou na mitologia da esquerda como responsável pelo resultado final daquele segundo turno. Que o diga meu professor Hugo Sousa. Claro, é mais fácil para o PT dizer isso do que admitir o crasso erro político que cometeu ao recusar o apoio de Ulysses Guimarães na reta final em 1989. E, além do mais, Lula nunca chegou a estar na frente de Collor nas pesquisas. O petista nunca chegou a ameaçar seriamente o favoritismo do rival. Amaldiçoar a escuridão dá menos trabalho do que acender uma vela. O problema é que não ilumina o ambiente. Mas, como o mundo gira e a Lusitana roda, hoje o PT faz aliança com quem tiver que fazer (uma evolução). Talvez esteja na hora de nomear uma comissão para reescrever a história do partido e fazer algumas autocríticas. Depois da eleição, é claro.

Essa conversa toda é para dizer que a doença tradicional da esquerda parece ter contaminado a campanha de Geraldo Alckmin. O noticiário está prenhe de reclamações contra um suposto terrorismo eleitoral do PT e aliados. Tucanos e pefelistas atribuem o aumento da distância entre Lula e Alckmin às afirmações (infundadas, segundo PSDB e PFL) de que a eventual mudança de governo representaria uma ameaça aos programas sociais e abriria a porta para a volta das privatizações. Vamos aos fatos. A distância tradicional entre Lula e Alckmin em simulações de segundo turno nunca havia baixado da casa dos dez pontos percentuais. No final do primeiro turno, em meio à comoção causada pelo acúmulo inédito de mídia negativa contra Lula (mídia gerada pela própria campanha petista), baixou para cerca de metade disso. A partir desse dado isolado, o spinning tucano-pefelista passou a espalhar que o vetor de Alckmin era ascendente e o de Lula, descendente. Como se sabe hoje, essa afirmação não se comprovou na prática.

O eleitorado parece que vai se reacomodando entre os candidatos. Como aquelas bolinhas de borracha que você deforma e elas sempre voltam ao formato original. Para quebrar esse bloco, a oposição teria que migrar para um lugar mais ao centro. Mas Alckmin está tendo dificuldade nessa migração, pois não tem pontos simbólicos em que se apoiar, além de ter ido muito longe no antipetismo e no antilulismo. As pessoas não são estúpidas. Ninguém acredita que o tucano vá vender todas as estatais. Apesar de alguns de seus eleitores (entre eles o Serjão) quererem que ele venda tudo. Mas Lula está explorando o fato inegável de que num governo dos adversários haveria maior probabilidade de empresas estatais serem vendidas. Sobre as dificuldades que enfrentam no debate do Bolsa Família, os tucanos devem buscar parte da explicação nas repetidas vezes em que pessoas identificadas com eles disseram que o programa é uma esmola. Alckmin já perdeu a eleição? Não. Mas vai perder, e de lavada, se permanecer boiando nesse mar de lamúrias. Se não conseguir explicar, minimamente, no que o seu governo poderia ser melhor para a maioria que hoje está fechada com Lula, mesmo depois de tantos tropeços do presidente e do seu partido.

Troféu Blog Destaque da Semana

Fiquei muito feliz com a indicação deste espaço como BLOG DESTAQUE DA SEMANA (16.10.2006) no site Gazeta dos Blogueiros. Agradeço a todos os amigos que me ajudaram em mais este prêmio.

10 comentários:

carlossanzio disse...

Voltei ao seu blog.

Excelente seu texto.

vai_perder?ja_perdeu disse...

PATRICK MUITO BOM SEU TEXTO, APENAS FAÇO UMA RESSALVA NO TÍTULO PQ O CHUCHU VAI PERDEU

LULA LÁ DE NOVO

alicemartins disse...

Vi a indicação do seu blog no site do Mhario Linconl. Gostei muito do (s) seu (s) texto (s).

Qaunto ao texto compartihlo de sesu poensaemtos

ifd disse...

"Uma das coisas mais difíceis na hora da derrota é você suportar a dor de saber o quanto foi responsável pelo resultado que colheu." Gostei disso!

leiaacartacacapitaldessasemana disse...

A Globo manipulou sim aquele debate, todo mundo sabe disso. A Globo manipulou no caso do dossiê. Ela está desesperada pq sabe que Lula será reeleito.

Leiam a carta capital dessa semana e vejam o escandalo

Ricardo Rayol disse...

Cara só sei que o jogo só acaba quando se encerra. Lá por volta da meia noite do dia 29 a gente vê no que deu.

Valter Abrucez disse...

Parabéns pela indicação.

Anônimo disse...

a gravação da entrega das fotos do dinheiro esta no blog do Paulo Amorim-Conversa Afiada vale a pena ouvir que MARACUTAIA QUE A GLOBO SE METEU

Blogue da Magui disse...

O cumpanhêro ganha esta .Já se foi o tempo em que analfabeto não votava.E qd não tinha urna eletrônica o analfabeto e semi analfabeto errava ao escrever .Com a urna eletrônica,o Brasil terá na presidência um digno e legítimo representante.

Nylda disse...

Olá! Parabéns pelo Destaque no GB. Adorei seu blog. Aceite meu Award.
Beijos e um sorriso.