27 junho 2007

A pouca-vergonha dos senadores sem votos

O Senado Federal vira de pernas para o ar todos os conceitos morais e institucionais republicanos no cabuloso escândalo protagonizado por seu presidente, Renan Calheiros (PMDB-AL), e promete novas cambalhotas em outro caso de dimensões mais modestas, o de Joaquim Roriz (PMDB-DF).A história do senador adúltero que leva a amante a tiracolo em viagens internacionais bancadas pelo dinheiro do desdentado da favela é tão comum que Juca de Oliveira a transformou na comédia Às Favas com os Escrúpulos, em cartaz em São Paulo. A peça é estrelada por Bibi Ferreira e o principal papel masculino, do próprio autor, poderia ter sido entregue ao pai dela, Procópio, contemporâneo de casos semelhantes ao do fictício senador Bernardo, de qualquer época, de qualquer partido e sem vergonha alguma. Chega, porém, a ter tal atualidade que parece ter sido a realidade que imitou a ficção, e não o contrário.

Mas nem a habilidade conquistada ao longo da experiência de repetidos sucessos cênicos inspirados na desavergonhada miséria ética nacional levou o dramaturgo a imaginar uma situação em que, apanhado em flagrante delito, o ilustre réu escolhe o juiz, nomeia o promotor e indica cada um dos jurados. Desde o babilônio Hamurabi não há notícia de julgamento tão esdrúxulo. Pelos serviços prestados ao governo, o presidente do Congresso conta com a cumplicidade do Poder Executivo, tendo em Romero Jucá (PMDB-RR) e Ideli Salvatti (PT-SC), cuja mão foi flagrado beijando, defensores de um denodo capaz de ofuscar os momentos de mais justa indignação cívica de Sobral Pinto e Evaristo de Morais, com o perdão do mau uso da memória deles nestas linhas.

O corregedor Romeu Tuma (DEM-SP) preferiu inocentar o colega a honrar o currículo de xerife de competência reconhecida a ponto de se transformar em razão do voto de milhões de paulistas. Sua má vontade em investigar foi desmascarada na primeira esquina por um telejornal, cujos profissionais se limitaram a conferir as notas fiscais com as quais o réu tentou se explicar, mas só se complicou. A presidência do conselho de sentença foi entregue a um ilustre aliado do réu, Sibá Machado (PT-AC), cujo senso de justiça pode ser medido pelo projeto que patrocina pretendendo a substituição do exame vestibular pelo sorteio das vagas em universidades, por ter o próprio pimpolho sido reprovado. O primeiro relator, Epitácio Cafeteira (PTB-MA), foi trazido do ostracismo em que se encontrava para se deixar encandear pelo brilho fátuo dos holofotes do noticiário. E sucumbiu, em seguida, ao contraste entre o peso da responsabilidade da absolvição do companheiro e o clamor das ruas. O caso do ressurrecto que voltou à paz do esquecimento com atestado médico não tem registro histórico ou mitológico. Não consta da Bíblia, nem de Homero ou mesmo de As Mil e Uma Noites.

Mas os aliados de Renan no Senado surgem de todos os lados e são de todos os partidos. Comove o constrangimento com que os líderes da dita oposição, puxados pelo paletó pela indignação nacional, evitaram o arquivamento in limine do relatório que nada relatava. José Agripino Maia (DEM-RN) e Arthur Virgílio (PSDB-AM), que correram para o abraço no que a corporação achou que poderia ter sido um gol presidencial, a fala do trono ante a mulher traída, agora tentam salvar a face. Mas, como o desafeto de José Américo de Almeida, choram pelo olho de vidro: seus adversários bem sabem que o que não pôde ser arquivado deve ser esquecido e o não faltam possibilidades de delongas numa Casa onde poucos não contam com a hipótese de o tempo ser, não o senhor da razão, como queriam os romanos, mas um escravo da malandragem cínica.

Epitácio Cafeteira atribuiu à própria esposa o ridículo papel a que se prestou. Mas, na verdade, ele sabe que é morador da sesmaria dos Sarney e ao melhor amigo de Renan deve seu mandato, mais que ao difuso e desconhecido eleitorado maranhense. Seu substituto, Wellington Salgado, o brevíssimo, tal como Sibá Machado, nem satisfação deve a cidadão nenhum, pelo simples e ineludível fato de que nenhum dos dois tem eleitor algum. A impunidade de Renan Calheiros pode ser garantida por vários fatores intrínsecos ao sistema representativo da democracia brasileira, que vão desde o fato de ele ser um craque na arte de 'fazer amigos e influenciar pessoas' até o corporativismo, que, se é grande na Câmara, maior ainda é no Senado. Recentemente este jornal exumou evidências deste truísmo. Apesar dos pesares, a Câmara já teve de expelir alguns peixes gordos de seu aquário, entre estes José Dirceu e Roberto Jefferson. Os senadores são mais 'leais' aos colegas e, quando levam um a deixar o convívio, caso de ACM, logo o recebem de volta, festejando a sábia máxima brasileira segundo a qual o povo sempre esquece e o eleitor sempre perdoa. Aleluia, irmãos!

O caso é que essa engrenagem só consegue funcionar porque é azeitada pela falta de compromisso dos sem-votos. Compara-se muito o velho Senado de Machado de Assis com este. E a diferença fundamental é que a Casa já foi, como queriam os fundadores da instituição, cidadãos romanos, o lugar do debate entre os mais sábios e probos. A regra eleitoral que determina a escolha dos senadores hoje permite que Sibá Machado e Wellington Salgado se iniciem por lá. Um é suplente de Marina Silva, ministra do Meio Ambiente. O outro, de Hélio Costa, ministro das Comunicações. Nenhum dos dois tem compromisso com eleitor nenhum, com nenhum conceito, com nada. É gente assim que assegura a permanência da impunidade.

Os escândalos Renan Calheiros e Joaquim Roriz deslustram o Senado. Mas o envergonham ainda mais seus suplentes sem votos. E só o voto popular pode acabar com essa pouca-vergonha.

Foto: Alan Marques/Folha

16 comentários:

Anônimo disse...

Patrick que belo texto.

Julio Aldo de Góes

querubimblog disse...

Patrick:

A cada vez que venho aqui e leio você tenho uma certeza: TENHO QUE VOLTAR OUTRAS VEZES

Bjo :*

querubimblog disse...

Patrick:

A cada vez que venho aqui e leio você tenho uma certeza: TENHO QUE VOLTAR OUTRAS VEZES

Bjo :*

Kozel® disse...

To de saco cheio dessa merda de política nacional,Patrick,voc~e deveria ter assistido aos videos que postei,te garanto que são mais interessantes que as tramóias dos fdps.

Tamires Santos disse...

Olá Cleber!
Que bom que gosta de escrever sobre política! Vejo que escreve muito,e bem.
Curioso você comentar que pareçe que a realidade se espelhou na ficção, e não ao contrário.
Só espero que os eleitores não tenham essa mesma impressão.E que todos lembrem-se: perdoar não significa esquecer. Que os eleitores perdoem, mas procurem mudar essa realidadeatravés da democracia.
Bom texto!
Beijos, Tamires Santos.

Goncalves disse...

Patrick

Taí uma coisa vergonhosa. Mais parece time de futebol. O titular não podendo jogar entra o imediato. Se o imediato também não pode aí entra o imediato do imediato, e assim sucessivamente. Como o senado é coisa mais séria que futebol, pelo menos deveria ser, não concordo com a suplência. Acho que uma nova eleição deveria ser convocada para suprir aquela deficiência ou na MELHOR das hipóteses CONDENAR/PUNIR o Estado a permanecer com apenas dois representantes até que o titular assuma o posto pela qual foi eleito. Não podendo assumir por uma causa maior (falecimento por ex) que se faça uma nova eleição para restabelecer a proporcionalidade.
Por exemplo: Como Sarney, Cafeteira, ACM, Tuma... todos eles já estão com um dos pés na cova ou no quinto dos infernos, assim que o outro for ao seu encontro que se faça uma nova eleição nestes Estados para restabelecer o quadro numérico.

Ricardo Rayol disse...

Cara isso aí é uma quadrilha e todos uns bons fdp. E cacete Patrick, voltou com a mania de fazer propaganda brother?

Jorge Sobesta disse...

Qualquer semelhança com a Roma antiga não é apenas mera coincidência. Daqui a pouco um Nero bota fogo em tudo.


Grande abraço.

Anônimo disse...

Simplesmente fantástico essa sua idéia de misturar ficção e realidade. É a vida imitando a arte.

ju disse...

Patrick você e seus textos são d+ aí a gente vem pros comentarios e so encontrar gente de 1ª

parabennnnnnnnnnnssssssssssssssss

Mário disse...

Resumindo: retrato escrito da politicaria que enfermou o Brasil contemporâneo e excluiu o cidadão. Precisa dizer mais alguma coisa? Parabéns pelo post. Abraços, Mário.

garrafa e mar disse...

funcionários públicos? servidores do povo brasileiro? sempre achei q a maioria n passa de administradores egoístas!

Thiago Barbosa disse...

É, belissima postagem amigo Patrick, eu só quero ver aonde isso vai parar, o povo já não aguenta mais todas essas tramóias!!! Grande abraço!!!

Moita disse...

Essa pouca vergonha haverá de acabar. Nem que seja por desobidiência civil.
Abraços

Valter Abrucez disse...

Patrick:
Com outro enfoque, naturalmente, tomei emprestado o mote do seu texto para fazer algumas considerações acerca da questão dos suplentes de senadores. Apreciaria sua avaliação.

Saramar disse...

Patrick, seu artigo é uma aula.
Envergonho-me diante de jovens como você, por sermos representados poe indivíduos como estes.
Nós merecemos? Afinal não os elegemos para isso.

beijos, boa semana.