30 agosto 2007

Nunca antes neste país...

A mesma instituição que, em 116 anos de existência, jamais mandou para a cadeia um político ou administrador público acusado de corrupção começou a se redimir numa escala também sem precedentes. Ao acolher, em apenas três dias de debates, quase todas as denúncias do procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, contra rigorosamente todos os 40 participantes do mensalão que ele conseguiu identificar, o Supremo Tribunal Federal desferiu o primeiro golpe que será “sentido” pela corrupção organizada contra a revoltante impunidade que rasgou e ainda mantém abertas as veias do Erário nos três níveis da Federação e nas três instâncias do Estado nacional. Por terem o relator da matéria, ministro Joaquim Barbosa, e os seus pares acolhido as acusações do procurador, em geral por ampla margem de votos, na maioria dos casos por unanimidade, tudo indica que, desta vez, o espetáculo não decepcionará a platéia.

Alguns dos 40 réus poderão ser inocentados por falta de provas de haverem praticado esse ou aquele crime do extenso repertório doravante em julgamento - que inclui formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, evasão de divisas, peculato e gestão fraudulenta. Outros poderão escapar do castigo graças às astúcias de advogados contratados a peso de ouro para arrastar o processo até a prescrição dos delitos de seus clientes. Ainda assim é impossível subestimar o alcance da mudança que o STF enfim decidiu esculpir na rocha, sob as vistas da Nação, excedendo até as expectativas mais otimistas sobre a aptidão (ou disposição) do Judiciário para levar aos tribunais os donos do poder que fizeram por merecê-lo. Há muito que a esfera pública não proporcionava aos brasileiros tão robusto motivo para a renovação de esperanças que pareciam definitivamente perdidas. Agora, sim, a sociedade pode repetir, sem ferir a verdade, o bordão do presidente Lula: “Nunca antes na história deste país...”

Quem acompanhou pelos noticiários os procedimentos da Corte terá percebido que os seus membros, de novo a começar do relator, foram tudo menos burocráticos ou formalistas. Eles não se limitaram a votar, passo a passo, a abertura do processo pedido pelo procurador Antônio Fernando, apenas com base na premissa de que os indícios por ele coletados eram suficientes para impedir a impronúncia sumária dos acusados. Sem omitir a imprescindível ressalva de que todos são inocentes até provas cabais em contrário, ainda assim diversos ministros pontuaram as suas manifestações com palavras que traduziam a inequívoca certeza íntima da materialidade do mensalão - e, mais do que isso, conhecimento da anatomia do crime. O relator, ministro Barbosa, por exemplo, qualificou o ex-capitão do time de Lula, José Dirceu, como “chefe incontestável” e “comandante supremo da trama”. E arrematou: “Para mim, é o bastante.”
Ao fazer o País revisitar o megaescândalo que só o presidente diz não ter visto, o Supremo teve outro mérito. Mostrou que cabem no banco dos réus um partido, um governo e um sistema político-eleitoral. A diferença entre o PT, o seu governo e os tantos outros que também deveriam ter ocupado esse lugar de desonra é que estes corrompiam pela pedestre ambição de enriquecer para continuar participando da política meretrícia. Já o petismo, desde que começou a administrar cidades importantes, invariavelmente empunhava a gazua com a apaziguadora convicção de que os fins nobres justificam os meios torpes. (Nem por isso petistas estrelados deixavam de delinqüir, cinicamente, em benefício próprio, à moda dos políticos burgueses.) Os fins iam muito além de ganhar eleições: tratava-se de um projeto de colonização do Estado brasileiro que consumiria fortunas antes de reduzir a ordem democrática a uma caricatura.

Não tivesse ido com tamanha sede ao pote, nem com tanta desfaçatez e soberba, contrariando até mesmo interesses cúmplices - o que provocou a denúncia do mensalão -, o núcleo condutor da operação chefiada pelo ministro Dirceu talvez pudesse continuar ordenhando o sistema que traz em si a causa estrutural da corrupção política brasileira, em suas inúmeras modalidades: a ânsia de construir maiorias parlamentares de que os governantes dependem para governar. Se realmente estivermos no começo do fim da era da impunidade, poderemos esperar que nunca depois, neste país, aconteça outro mensalão.

12 comentários:

Adilson Teixeira da Silva disse...

Você diz que alguns réus serão inocentados. A exemplo do que aconteceu com Michael Jackson, não acredito que seja possível alguém ser inocentado pela opinião pública, após um escândalo.

Anônimo disse...

Patrick Gleber,

Vim ao seu blog pq ouvi seu texto no boca quente.

vc esta de parabens

cajazeiras sempre revela talentos no jornalismo e vc eh um deles

rafael_canella disse...

Está mais uma vez com toda razão amigo.

Ricardo Rayol disse...

Meu amigo, com a atual promiscuidade entre os poderes pode ter certeza que há fogo atrás dessa cortina de fumaça. E a sede ao pote é explicada pelo amadorismo. Os metsres Jedi da roubalhiera conhecida como oposição não ensinaram o pulo do gato.

Jorge Sobesta disse...

Patrick,

Enquanto seus quarenta ladrões estão se esforçando para sairem ilesos dessa, o infiel Ali Babá está no seu grande circo , o congresso petista, tramando sua permanência "permanente" no poder.

Parabéns pelo seu texto.

Grande abraço.

João Bosco disse...

Democracia não é apenas votar nos governantes, é também um estado de espírito de toda uma nação.
Estamos começando a viver uma democracia plenamente, pelo menos são os sinais emitidos pelo nosso Tribunal Supremo, o STF.
A aceitação da denuncia no caso do mensalão, não significa condenação dos pronunciados, acho que este é o termo jurídico, mas é um sinal claro e inequívoco, para toda a sociedade que crimes, mesmo os de pessoas que usam "Blake Tie", serão investigados e apurados.
As providencias tomadas pela Ministra Helen Gracie, colocando a tecnologia em campo, pode encurtar os transitos legais, o que certamente apresará os resultados finais, é outro sinal de que o tempo não será utilizado para apagar da memória os graves fatos ocorridos.
Sobre o Senado, é cristalino o grande papel da midia e do povo, reinvidicando a apuração dos fatos. O Senador Renan é inocente até prova em contrário, assim como os do caso mensalão, mas a abertura de investigações é imperativa quando há indicios de irregularidades.
Não pode haver maior indicio de irregularidade do que políticos receberem dinheiro para votar um determinado projeto, também é um indicio importante o fato de alguém utilizar-se de conhecido "funcionário" de uma grande prestadora de serviços para o governo, para resolver problemas pessoais, financeiros ou tudo junto como parece ser.
Poucas vozes discordam dos procedimentos adotados até aqui, caberá a nós cidadão respeitar as decisões do STF no julgamento criminal e, a decisão do plenário do Senado no julgamento político de Renan Calheiros.
Tenho a esperança de que melhores dias virão, já que os sinais estão sendo emitidos. A esperança em uma nação que lute unida, em busca da igualdade social verdadeira, não apenas para agradar os populistas e usuários de políticos susceptíveis de serem cooptados, por pouco mais que alguns reais.

tunico disse...

Patrick, nem tanto...nem tanto.Só veremos condenações se permanecermos alerta e pressionando. Caso contrário, as chicanas jurídicas surtirão efeito e ninguém será condenado. Talvez somente aqueles que não estão no meio político, como o pessoal do Marcos Valério e do tal banco Rural mais outros peixes menores . Mas quem eu quero ver condenado de fato, é José "Petralha" Dirceu.

Fábio Mayer disse...

Interessante e notar que:

- O procurador-geral da república foi indicado pelo PT;
- 6 dos 11 ministros do STF, indicados pelo PT.

Ou seja, não há possibilidade de se usar a desculpa de perseguição das elites, direitismo ou coisa parecida.

garrafa e mar disse...

Sem brincar ... vai SOBRAR QUEM do gover no? brincadeira. tomara q dê tudo certo e o STF esteja do lado do Brasil.

garrafa e mar disse...

Sem brincar ... vai SOBRAR QUEM do gover no? brincadeira. tomara q dê tudo certo e o STF esteja do lado do Brasil.

Santa disse...

Oi Patrick querido,

Digitando mal ainda devido a cirurgia, mas hoje amanheci animada... Menos dor dor pela primeira vez. Saudades! Quero agradecer as visitas carinhosas que recebo lá no blog. Bjs

Fábio Mayer disse...

URGENTE!

Vá nos comentários do meu blog, tirei um petralha do sério!